Santiago do Chile, 16 de novembro de 2016.

[Declaração em português]

A poucos anos do centenário da Reforma de Córdoba, a universidade latino-americana deve manter e renovar seu compromisso social e histórico, enquanto enfrenta vários desafios que perturbam seus hábitos: massificação estudantil; qualidade educativa; internacionalização regional e mundial; inclusão social; financiamento e mercantilização da educação superior; desafios éticos da globalização e insustentabilidade do desenvolvimento atual; inovações tecnológicas e mudanças nos padrões culturais; riscos sociais e ambientais induzidos pela atividade científica; transição ecológica da economia; etc. Todas essas frentes demandam uma clareza na visão e missão das comunidades universitárias, assim como uma bússola confiável para assumir uma gestão ética e responsável da excelência acadêmica e administrativa, atenta às necessidades territoriais, por parte dos gestores universitários.

Há quinze anos, se começaram a construir, na América Latina e Caribe, novos modelos de compromisso social universitário sob o nome de “Responsabilidade Social Universitária” (RSU). Várias redes têm buscado e buscam promover este enfoque em sua região: “Universidad Construye País”, no Chile; a Rede de Universidades vinculadas à “Iniciativa Interamericana de Ética , Capital Social y Desarrollo”, do BID, a Rede AUSJAL; a Rede Latinoamericana de Cooperación Universitaria; a Rede Iberoamericana de Voluntariado Universitario (REDIVU)… Também foram criados observatórios dedicados ao tema: OIRSUD, ORSU, ORSALC, OMERSU… Este boom faz eco a muitas iniciativas internacionais, como por exemplo a Rede Talloires ou o Manifesto do Movimento Europeu EU.URS (University Social Responsibility in Europe). Na última década, muitas universidades têm rebatizado suas áreas de vinculação social em termos de RSU e um sem número de eventos acadêmicos, publicações e pesquisas têm se dedicado ao tema.

No entanto, os esforços empreendidos merecem maior visibilidade, melhor coordenação interinstitucional e internacional, ampla cobertura e ressonância territorial, para alcançar realmente o propósito de impactar positivamente e transformar a educação superior, ou correremos o risco de multiplicar ações sem alcançar o desenvolvimento humano sustentável anelado. Por falta de difusão e sinergia, muitas vezes ainda confundimos a RSU com a Extensão Universitária, porque as rotinas mentais e administrativas são difíceis de mudar. Precisamos ter peso frente às agendas educativas regionais, capitalizando as experiências nacionais e internacionais, e escalando as realizações das diferentes universidades e redes para co-construir o modelo universitário socialmente responsável que queremos. Como atores da RSU, necessitamos:

  • conhecer-nos melhor para nos apoiarmos mutuamente;
  • superar a confusão sobre o conceito que faz com que se entenda RSU como qualquer iniciativa universitária socialmente bem intencionada; e
  • avançar juntos na direção de uma universidade latino-americana mais eficiente na gestão de seu compromisso social, alinhando as rotinas administrativas e acadêmicas com o discurso de sua missão de pertinência social e solidariedade.

Para alcançar este propósito, é preciso unirmo-nos em forma ampla e aberta, mas, também, firme e pró-ativa, para criar um grande movimento continental de Responsabilidade Social Universitária, que possa, através do consenso e colaboração, ter impactos nas políticas públicas de educação superior, no formato e destino das universidades, na pesquisa e inovação socialmente responsáveis, nas agências de avaliação e acreditação, na integração continental da educação superior.

Por este motivo, propomos a criação de uma União de Responsabilidade Social Universitária para Latinoamérica (URSULA), que se constitua em torno de algumas considerações compartilhadas:

  1. A Responsabilidade Social Universitária não se limita a ações generosas voluntárias; é uma política de gestão que abarca permanentemente toda a instituição e cobre todos os aspectos do seu fazer acadêmico e administrativo.
  2. A Responsabilidade Social Universitária não é um tema reservado a um órgão da universidade, ao lado dos demais. Não é outro nome para a Extensão, Projeção Social ou vinculação com o meio. É um modelo de gestão universitária que alinha os quatro processos – Ensino, Pesquisa, Extensão e Gestão, com imperativos éticos de participação institucional na solução dos problemas sociais e ambientais do entorno territorial local, nacional, regional e mundial.
  3. A Responsabilidade Social Universitária é uma política de gestão que permite criar coerência entre o discurso da missão institucional e a prática cotidiana da comunidade universitária, concretizando os propósitos éticos tanto para a academia como para a gestão central. Portanto, a Responsabilidade Social Universitária convoca a todos os membros da comunidade universitária: gestores, técnico-administrativos, docentes e estudantes, para que cumpram a missão de sua universidade, discutindo e inovando, medindo e avaliando, e prestando contas periodicamente dos resultados alcançados em termos de impactos sociais e ambientais.
  4. A Responsabilidade Social Universitária promove a auto-reflexão universitária em espaços abertos de aprendizagem mútua, para a melhoria contínua do desempenho ético da instituição e de seu vínculo solidário com o seu território. Permite tomar consciência de que a universidade faz parte dos problemas sociais e ambientais, antes de fazer parte das soluções. Por isso, não se contenta em gerar impactos positivos ao seu entorno, mas, também, identifica e enfrenta os impactos negativos que são gerados pelo seu fazer diário, muitas vezes de forma involuntária e não imediatamente perceptível. A RSU enfrenta criticamente os problemas de inconsistências de gestão, currículo oculto e prejuízos epistemológicos.
  5. A Responsabilidade Social Universitária exige progressos regulares da universidade em matéria de: campus social e ambientalmente responsável e boas práticas de governança; pertinência social curricular e aprendizagem baseada em projetos sociais; pesquisa a partir das demandas da comunidade e gestão social do conhecimento; inovação social e participação ativa na solução dos problemas sociais e ambientais junto com os demais atores territoriais. Para isso, se esforça em construir instrumentos de medição, avaliação e gestão que possam facilitar a melhoria contínua da qualidade com a pertinência social da universidade latino-americana.
  6. Devemos reconhecer os avanços em nível mundial das demais organizações em matéria de responsabilidade social, em particular o movimento internacional de definição consensual alcançado pelo Guia da Norma ISO 26000, entre mais de 90 países e múltiplas partes interessadas de norte a sul. Os progressos dos demais setores ressaltam a necessidade de um trabalho conjunto entre todos os atores territoriais, públicos e privados, com e sem fins lucrativos, confessionais, comunitárias e particulares, para alcançar um desenvolvimento mais humano e sustentável. Mas é importante sublinhar o caráter genuíno da responsabilidade social universitária, inconfundível com a responsabilidade social empresarial, baseada na gestão dos impactos acadêmicos (formativos e cognitivos), que precisa de indicadores específicos a serem construídos nas universidades latino-americanas.

Os abaixo-assinados se comprometem a:

  • Promover e praticar a Responsabilidade Social Universitária na nossa instituição, embasada nas considerações acima mencionadas;
  • Ser membros pró-ativos da presente União de Responsabilidade Social Universitária para Latinoamérica, utilizando-se desta membresia de forma ética e útil para a academia e para a gestão da nossa instituição, assim como das demais universidades latino-americanas;
  • Colaborar com os demais membros da União URSULA, participando voluntariamente das atividades propostas à medida de nossas possibilidades, respeitando as diferenças entre cada instituição, mas buscando consensos e inovações, dentro de um espírito de transparência, generosidade e solidariedade;
  • Produzir e difundir conhecimentos e práticas de RSU de forma aberta e colaborativa, entre os membros da União URSULA e além dela;
  • Produzir um informe anual sobre as iniciativas e resultados alcançados no que tange à RSU, e divulgá-lo entre os membros da União URSULA.

URSULA, sendo União, está a serviço de todas as iniciativas de todos os atores e redes de atores que trabalham em prol da RSU na região. Não se opõe, não exclui, não compete; colabora, inclui, ajuda.

A participação na União URSULA é voluntária e gratuita, podendo inscrever-se a Instituição de Educação Superior como um todo, mediante uma resolução da reitoria ou de uma de suas unidades (Faculdades, Escolas, Vice-Reitoria, órgãos administrativos, Associação estudantil, laboratório, etc.) mediante resolução do seu responsável habilitado. Não implica na perda de autonomia alguma para a IES. Podem ser membros de URSULA qualquer IES latino-americana, pública ou privada, confessional ou laica, devidamente reconhecida oficialmente por suas autoridades nacionais competentes, assim como redes, associações e observatórios universitários, ou instituições dedicadas principalmente a temáticas de educação superior ou responsabilidade social (centros de pesquisa, think tanks, ONG´s…), e pessoas naturais reconhecidas academicamente, exceto ligadas à qualquer governo, empresa privada, organizações com fins lucrativos e/ou ou proselitistas (partidos políticos, movimentos religiosos, etc.), a fim de não distorcer o caráter plural, livre, não dogmático e especializado em temas de RSU da União URSULA.